Rádio Cidade do RJ - 102,9 Mhz #Cap.3


A DECADÊNCIA DA CIDADE

Em 1993 a Rádio Cidade do Rio de Janeiro volta integralmente ao pop dançante. José Roberto Mahr, apresentador do programa "Novas Tendências", saiu da Rádio Cidade e voltou à Fluminense FM para comandar o programa "Overdrive". A Rádio Cidade, que voltou a ser pop 24 horas por dia, parecia se manter fiel ao segmento, recuperando credibilidade entre o seu público. Ainda não era a Rádio Cidade de 1977, mas com seus prós e contras pelo menos estava fiel à sua história.
Um dos programas mais destacados nessa fase se chamava "Só se for dance", surgido dois anos antes. Era um programa transmitido todos os dias, incluindo os dias úteis, e que mostrava os sucessos do pop dançante e as remixagens de canções de música jovem nacionais.
A emissora parece se firmar no segmento dance, a ponto de lançar o CD Dancidade - do programa homônimo - no final de 1994, com ampla tiragem, e ainda divulgava a coletânea quando, em fevereiro de 1995, veio uma ordem interna (suspeitas indicam vir da Jovem Pan Sat, que tirou a Fluminense FM do ar) para que as rádios Cidade e Transamérica passassem a tocar rock, abandonando o pop dançante. A medida, apesar de atingir de uma forma ou de outra várias partes do país - a Transamérica operava em rede e algumas afiliadas da Cidade, como de Vitória e Recife, esta parcialmente, passariam a seguir a linha pseudo-roqueira da carioca - , tinha por objetivo mais provável "firmar" a Jovem Pan 2 no Rio de Janeiro, livrando esta rede da concorrência direta das outras.
Um aspecto muito estranho é que as duas rádios pop tentaram se converter para o rock sem se adaptar para o novo segmento. Nenhum locutor da fase mais pop, de fala neurótica e sem o menor entendimento de cultura rock, foi substituído por locutores roqueiros, que entendessem de rock e tivessem uma dicção mais tranqüila, sem gírias. Apenas parte dos produtores era substituída, ainda assim por gente com entendimento superficial de rock, com formação cultural na MTV. Era gente mais entendida em modismos e sucessos das paradas dentro do segmento roqueiro, mas incapaz de ir além das informações mais manjadas.
O pior disso tudo é que a necessidade de adaptação foi ignorada, provavelmente, de propósito, uma vez que, no caso da Cidade, passaram-se vários anos e a emissora não se preocupou uma vez sequer em mudar o estilo de locução para a linha sóbria e inteligente das autênticas rádios de rock. Ao invés disso, manteve a linguagem pop carregada das mesmas gírias que já desfilam livremente nas festas de dance music e nos trios elétricos do Carnaval baiano, "arena" da axé-music popularesca.
Segundo informações extra-oficiais, o fato da Cidade e Transamérica não terem se adaptado dignamente ao segmento roqueiro seria uma forma de desmoralizar a Flu FM para favorecer o processo de alienação e idiotização dos jovens pelo rádio, porque tanto a Cidade quanto a Transamérica adotavam os mesmos defeitos que "derrubaram" a Flu FM, e até os pioraram, colocando os piores vícios do mais abjeto radialismo pop de última categoria. Porém, estranhamente, resistiram.
A Cidade "aderiu" ao rock em março de 95 e a Transamérica, em abril do mesmo ano. A Transamérica desistiu do rock em junho de 1996, mas manteve o programa "T-Rock" que foi extinto discretamente em 1998, nunca alcançando uma boa audiência. Mas ainda assim foi difícil para a Transamérica sair dessa atitude oportunista.
Quanto à Rádio Cidade, a emissora usou como publicidade os patrocínios de concertos de rock na casa Metropolitan (depois ATL Hall, Claro Hall...), no Shopping Via Parque da Barra da Tijuca. A Rádio Cidade tinha uma estratégia publicitária sutil: anunciava no Jornal do Brasil, dono da rádio, a sua programação, mas em outros jornais concorrentes estampava seu logotipo como patrocínio de eventos roqueiros - ou quase isso - do Metropolitan.
Uma observação: o chamado "apoio" da Rádio Cidade aos concertos de rock não se refere, na verdade, às bandas em si, mas ao contrato de parceria com as casas noturnas, como a Metropolitan/ATL/Claro, que escolheram a rádio para patrocinar os concertos que os produtores definem como rock. Além disso, "apoio" é um jargão publicitário que significa uma empresa patrocinadora, por razões puramente contratuais, de arcar com parte da apresentação de um artista em determinado lugar e com a publicidade do espetáculo. Esse é o tal "apoio".
Ninguém na Rádio Cidade patrocinava um concerto de rock por paixão a determinados artistas, inclusive aqueles que a equipe da emissora desconhecia. A Rádio Cidade investia no respaldo da produção do evento, visando unicamente o lucro, afinal, do faturamento dos caros ingressos cobrados pelo ATL Hall e outras casas, uma boa fatia iria para os cofres da Rádio Cidade e para o salário dos locutores.
Temos um outro detalhe sobre a Rádio Cidade. Como os sinais da Fluminense FM não chegavam à Barra da Tijuca, "morrendo" já nos arredores da Gávea, a Rádio Cidade acabou tendo aliados no famoso bairro nobre da região do Marapendi. Pior de tudo: a Rádio Cidade restringia sua audiência aos condomínios da Barra da Tijuca, Recreio, São Conrado e minorias abastadas espalhadas em outras regiões, entre "funkeiros" refratários e ouvintes que gostam de mudar de estação em FM, que ouviam naqueles anos 90 as Spice Girls na Jovem Pan 2 / Jovem Rio, os Guns N' Roses na Rádio Cidade e os Racionais MCs na Transamérica.
Existia até uma piada de que o nome da Rádio Cidade deveria ser mudado para Rádio Comunidade (dos Condomínios da Barra), pois na prática os 102,9 mhz só causavam deleite mesmo para os paga-paus que moram na Barra da Tijuca e arredores, únicos que se identificavam plenamente com o perfil da rádio. A Rádio Cidade era uma rádio comunitária no pior sentido do termo, que só era "roqueira" para os riquinhos da Barra, mas nas outras regiões continuava sendo a mesma rádio pop que precisava tocar Paralamas, Titãs e coisas leves como Cidade Negra para não perder audiência. Mesmo assim, as pretensões "roqueiras" da Rádio Cidade mereciam outro apelido pejorativo, "Junkie Rio", ou seja, algo que uma Jovem Rio FM mais junkie.
Até tentaram dizer que os órfãos da Fluminense FM migraram para a Rádio Cidade, mas destes mesmo, só aqueles que começaram a ouvir a Flu FM já decadente, a partir de 1993 e 1994. Os demais, apenas em primeira instância sintonizaram a Cidade para verificar a conduta da emissora diante do rock, porém mais para saber dos erros e gafes do que realmente ouvir uma "nova rádio rock". Já em 1996 a Cidade restringiu seu público para uma demanda "roqueira" mais pop, a maioria querendo ouvir dez Cidade Negra, Raimundos e Skank para cada um nome de rock pesado ou "difícil" na programação.

PS: Todo o material foi recolhido em sites da internet desconhecendo-se a autoria.

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