O locutor que lhes fala


Reportagem publicada no Jornal O Globo, no ano de 1977, sobre as transmissões esportivas do Rádio carioca

O LOCUTOR QUE LHES FALA

A briga pela audiência entre as rádios no Maracanã costuma ser muito mais disputada do que entre os times em campo

"Avança Osni pelas quebradas da direita, descola um passe jóia para Carpeggiani numa boa. Vai mais, vai mais, vai mais, garotinho, que esta pode dar samba. Carpeggiani para Zico que atira -vai entrando, vai entrando, vai entrando .. Entrou..." (José Carlos Araújo)

"Indivíduo competente o Zico! Deeeeeeez.. é a camisa dele! Tem peixe na rede do Vasco. O relógio maaaaaarca..." (Waldir Amaral)

"Passa de passagem pelo Marinho e fuzila - é golaço... aço... aço... Dá-lhe, garoto!" (Jorge Curi)

"Bota no meio, Armando!" (Orlando Batista)

Do jeito que os jogos estão ultimamente, há quem prefira ouvi-los pelo rádio do que ir ao Maracanã. Pelo menos, tem-se a garantia da emoção. Bolas que passam a um metro do travessão "tiram tinta do telhado". Jogadas mornas e inconseqüentes na intermediária ganham vida e calor como se se passassem na pequena área. No febril entusiasmo dos narradores, gols de placa são marcados de 15 em 15 minutos. Não se trata de desvirtuar propositadamente a realidade, E' que as rádios descobriram que, se o jogo não fornece o espetáculo, os narradores são obrigados a fornecê-los. Além disso, a galera gosta.

Nessa guerra pelo espetáculo, as principais emissoras futebolísticas se empenham com muito mais garra do que certos times em campo. Todas as semanas uma delas introduz um novo sinal sonoro, que tanto pode ser um apito, um eco, uma batucada, um zumbido, um sino ou qualquer ruído não identificado. Na Rádio Globo, todos os locutores têm prefixo próprio, ao qual nunca deixam de responder: "Waldiiir Amaral!" - "Deixa comiiigo!" Recentemente, quando José Carlos Araújo mudou-se da Globo para a Nacional, levou junto seu prefixo, mas teve de alterá-lo ligeiramente.

No meio de toda essa babel eletrônica, os narradores ainda encontram tempo para ler os comerciais, relacionar as 600 rádios do interior que entram em cadeia, informar o andamento da Loteria e, eventualmente, narrar o que se passa no campo. Alguns, como Doalcei Camargo e José Carlos Araújo, vão realmente em cima da bola. Outros têm que pedir socorro ao repórter atrás do gol, antes de gritar o nome do atacante que acaba de estufar o barbante.

Ao contrário da famosa gaitinha de Ary Barroso, que só tocava com força para anunciar os gols do Flamengo, os atuais sinais sonoros são altamente democráticos: tocam para todo mundo. Gols do Madureira são festejados pela mesma batucada que a Rádio Tupi dispensa aos gols do Fluminense - mesmo que sejam gols contra o Fluminense.

Leonardo Gagliano NetoOs grandes narradores do passado, como Gagliano Neto ou Oduvaldo Cozzi, ficariam provavelmente perdidos diante da nova terminologia dos repórteres-volantes. "Bater na latinha" significa mandar o som para a cabine. "Pegar na veia" é o chute em cheio com o peito do pé. "Esquentar o banquinho" é o que fazem os reservas - mais especificamente, os bancários. Quase todas essas inovações, assim como as denominações de geraldinos, arquibaldos e macários, são de autoria de Washington Rodrigues, agora na Nacional. Depois de algum tempo, esses nomes passam a fazer parte do argot do futebol e são como se sempre tivessem existido. Mais difícil é adivinhar o que Luís Mendes quer dizer quando afirma que "o goleiro se esticou todo e, com grande dose de estoicismo (sic), conseguiu segurar a bola".

Um som diferente a mais, um trecho do hino do time que fez o gol, dois comentaristas debatendo o jogo durante o intervalo, os inúmeros efeitos sonoros e as chamadas bolações lingüísticas - de bom ou mau gosto - são alguns dos artifícios usados pelas rádios cariocas para conquistar a preferência do ouvinte. Globo, Tupi, Nacional e, bem menos, a Continental, dizem-se líderes de audiência. No fundo, todas têm razão quando se arvoram essa liderança. A Globo pode ter a maior audiência nacional, mas a Tupi se orgulha de ser a mais ouvida dentro do Maracanã, enquanto a Nacional se dirige à audiência jovem. O importante é garantir a permanência dos patrocinadores . por mais uma temporada.

Waldir AmaralWaldir Amaral, chefe da equipe de esportes da Rádio Globo, toma para si a paternidade das inovações introduzidas nas transmissões esportivas. Conta que há cerca de 10 anos, incentivado por Chacrinha, passou a usar sinais eletrônicos, simultaneamente com algumas frases que caracterizassem as transmissões da emissora, tais como "o relógio marca". Waldir lembra que chegou a relutar, com medo de cair no ridículo, mas o sucesso imediato obtido com os barulhinhos acabou por animá-lo a imaginar outras coisas.

Hoje são inúmeros os sinais sonoros e as frases de efeito utilizados pelos locutores da Globo. A sofisticação chegou a tal ponto que os sons especiais são produzidos por estúdios especializados, contratados especialmente para isso. Até um aparelho chamado Mug - uma espécie de sonorizador - foi importado dos Estados Unidos. Segundo Waldir, o aparelho produz uma infinidade de sons, que serão introduzidos durante as transmissões.

A luta pela audiência é encarada com seriedade por Waldir Amaral. Em sua sala, boletins do IBOPE servem de base para que ele acredite em seu trabalho. Waldir explica que a audiência é de suma importância, pois sem ela a rádio não poderia cobrir o custo operacional das transmissões, que atingem cerca de CrS 1 milhão 500 mil por mês. Dois patrocinadores sustentam as transmissões esportivas da Rádio Globo.

Numa pequena sala do 22° andar do edifício do Ministério da Indústria e do Comércio, na Praça Mauá, José Carlos Araújo dirige a equipe da Rádio Nacional. Discípulo de Waldir Amaral, com quem trabalhou até bem pouco, ele também é de opinião que as transmissões esportivas têm que ser cada vez mais sofisticadas para atrair o ouvinte. Locutor jovem, José Carlos procura em suas transmissões falar como o jovem de hoje. Ele acha válida a gíria, que em sua opinião pode ajudá-lo a formar o seu público entre os mais novos.

Na Tupi, Doalcei Camargo, embora não seja um locutor tão sofisticado e cheio de bossa como José Carlos Araújo, compensa sua sobriedade com os mais variados efeitos sonoros. Além dos sinais eletrônicos, a Tupi utiliza muita música. Na hora do gol, uma batucada entra no ar e, depois que o repórter fica atrás da baliza descreve os detalhes do lance, o gol é festejado com um trecho do hino do clube. Doalcei acha que o futebol está muito ligado ao carnaval, daí a idéia de juntar a alegria do samba com a euforia do gol.

Sem a sofisticação dos outros concorrentes, mais por falta de condições do que por falta de criatividade, Orlando Batista procura garantir sua audiência transmitindo jogos para uma determinada parte do público. Ele procura sempre acompanhar os jogos do Vasco, deixando de lado o clássico do Maracanã.

O Vasco é a segunda força - explica Orlando - por isso, se ele jogar com o Goitacás em Campos e o Flamengo com o Botafogo no Maracanã, centralizo minha transmissão em Campos, pois garanto minha audiência. Seria loucura tentar dividir com as outras a audiência do Maracanã.

Orlando trabalha por sua conta. Da Continental, ele aluga apenas o horário. Usa equipamento próprio e toda sua equipe de locutores e operadores é contratada da sua agência de publicidade. O programa A Turma do Bate-Papo, segundo, ele, é líder absoluto de audiência no horário das 18h15m. Lembra, inclusive, que foi o primeiro a criar um programa informal no rádio esportivo.

Além da sonoplastia, as emissoras se valem de outros meios para melhorar a audiência. A atividade infernal dos repórteres de campo durante as transmissões dos jogos é considerada fator primordial para o sucesso de uma equipe esportiva. A presença dos repórteres em cima dos acontecimentos acaba se transformando numa guerra particular. Um deles rastejando até a boca do túnel para ouvir a opinião de um treinador tornou-se fato corriqueiro para os freqüentadores do Maracanã. A presença dos rádio-repórteres em cima do fato também pode causar imprevistos, como o que aconteceu no jogo Seleção Brasileira x Combinado Vasco e Botafogo, quando Carlos Alberto foi expulso e disse aos microfones da Nacional e Tupi os palavrões que reservara para Armando Marques.

A parte de comentários também é importante. Um bom comentarista impede o ouvinte de mudar de estação no intervalo do jogo. Na Globo, João Saldanha ("Meus amigos...") é certeza de grande audiência. A Tupi, numa tentativa de melhorar seus índices, passou a promover uma espécie de debate entre os seus comentaristas principais, Gérson e Rui Porto. ("Rui, eu estou com você e não abro.") Doalcei Camargo acha que a contratação de Gérson há dois anos aumentou muito a audiência da emissora. A contratação de outro comentarista para trabalhar com Geraldo Borges deve ser tentada por José Carlos Araújo com objetivo de garantir a permanência do ouvinte na Nacional nos intervalos das partidas.

O horário que antecede as transmissões também merece tratamento especial por parte das rádios. Além da preocupação em começar a jornada esportiva cada vez Mais cedo, a programação que antecede a transmissão do jogo é produzida com pelo menos três dias de antecedência. O equipamento usado também é cada vez mais sofisticado. A Tupi, por exemplo, acabou de comprar microfones volantes dos mais modernos.

Além dos efeitos sonoros e das bossas cada vez mais utilizadas pelos narradores, as emissoras se valem de outros meios para conseguir audiência. Uma vasta programação esportiva durante a semana tem por finalidade prender o ouvinte até domingo. A Globo começa a falar de futebol às 5h45m da manhã, com um comentário de Alberto Rodrigues, chamado Da Pelada ao Pelé. Dai até à 23h30m, a programação da rádio é entremeada por vários comentários e resenhas, no quais também são incluídos efeitos especiais de som. Na Globo, José Cláudio, o Formiga, é o operador de som responsável por esse setor.

As 6h50m, a Tupi começa sua programação esportiva, que se estende até 23h. Até nos jornais falados, os repórteres Cléber Leite e Ronaldo Castro fazem flashes sobre acontecimentos futebolísticos. Um programa semanal especializado em Loteria Esportiva também é fator importante de audiência, segundo alguns componentes da equipe da Tupi.

José Carlos AraújoNa Nacional, José Carlos Araújo acredita que um programa ao vivo, logo de manhã, possa obter êxito. Em Os Trepidantes Comentam, os repórteres Denis Menezes e Washington Rodrigues analisam as principais manchetes esportivas dos jornais da cidade. José Carlos pretende também incluir programas especiais na programação esportiva da Nacional, onde se discutiriam temas como "A Personalidade de Rivelino", que seria analisada até por psicólogos.

As últimas pesquisas do IBOPE ainda apontam a Rádio Globo como líder de audiência esportiva, embora fontes oficiosas do próprio IBOPE garantam que a Tupi conseguiu superar a Globo no domingo passado, na transmissão de Botafogo e Fluminense. As pesquisas apontam também uma subida vertiginosa da Rádio Nacional desde a contratação de José Carlos Araújo. A Continental tem pouca cotação, mas Orlando Batista garante que tem audiência, tanto que está há vários anos com o mesmo patrocinador.

Um boletim do IBOPE sobre as transmissões do jogo Brasil e Colômbia, em. Bogotá, realizado no dia 20 de fevereiro, com visitas a 1 mil 200 residências, mostra a liderança da Globo com 47.3, vindo a seguir a Tupi com 29.7 e a Nacional com 20.1. O mesmo boletim mostra uma pesquisa feita em 134 bares da cidade - Globo 30.6; Nacional 9.0; e Tupi 1.5. Outra pesquisa de opinião feita no Maracanã durante o jogo Brasil e Paraguai, no último dia 20, teve os seguintes índices: Globo 58.5; Tupi 22.6; Nacional 16.7 e Continental..1.4.

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Jornal/Revista: O Globo
Data de Publicação: 3/4/1977
Autor/Repórter: Carlos Albero Rodrigues
Extraído de: Rádio Base

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