Rádio Cidade do RJ - 102,9 Mhz #Cap.6


RÁDIO CIDADE ENTRA NA REDE DA 89 FM

Durante quase dois meses a Rádio Cidade se estabiliza na dance music, entre maio e julho de 2000. Diferentemente do desempenho de abril de 1998 a dezembro de 1999, quando a Cidade parecia estar com muita má vontade em reassumir o pop dançante, tocando apenas coisas mais grosseiras e repetitivas, a emissora parecia bem disposta no gênero em 2000.
É certo que a Cidade tocava as obviedades tipo Vengaboys, Backstreet Boys e Britney Spears, mas tocava outras coisas mais apropriadas ao segmento. A audiência subiu de maneira impressionante e os ouvintes comemoravam a vitória da Cidade sobre a Jovem Pan 2 que, abatida, deixa de ser transmitida nos 94,9 mhz do Rio de Janeiro em julho de 2000, ficando a Jovem Pan Sat cerca de meio ano sem ser transmitida no Estado do Rio.
A Rádio Cidade se torna bem-sucedida na volta ao pop dançante, mas, ainda em julho, a coisa se reverte. A Rádio Cidade retoma a mesma linha de 1995-1998, cada vez mais piorada, burocrática e superficial. Alguém indicou a Rádio Cidade para a cúpula da rádio paulista 89 FM, que planejava entrar em rede. Em agosto de 2000, a Cidade acabou tendo novo logotipo, similar ao da 89 FM (criado pelo publicitário Washington Olivetto que, pelo que se saiba, não é um homem tradicionalmente vinculado ao rock), que inclui o termo "A Rádio Rock". A essas alturas a Jovem Rio entra no mesmo lugar da antiga Jovem Pan Rio, aproveitando os mesmos locutores locais desta.
No início de 2001 a rede da 89 FM de São Paulo já havia sido composta pela Rádio Cidade no Rio de Janeiro e pela 103 FM de Sorocaba, interior paulista. Várias rádios foram contatadas e a Enseada FM, de Santos, litoral paulista, chegou a uma parceria de caráter experimental com a 89. A Rádio Cidade de Vila Velha não integra a rede da 89 FM, mas segue a orientação da Rádio Cidade de 1997, daí o uso do logotipo da rádio carioca na época.
A rede organizada pela 89 FM segue basicamente a fórmula antiga da rede de rádio, em que não se utilizava praticamente o satélite, mas sim um mesmo know how de trabalho nas programações locais das afiliadas. Mesmo o programa "Pressão Total" da Rádio Cidade, por exemplo, é produzido no Rio de Janeiro. Com o passar do tempo, apenas alguns programas como "Noise", "Rock Bar", "Sexo Oral" e "Gordo O Filme" são gerados da própria 89 FM. O logotipo e a estrutura de rede foram estabelecidos em 01 de outubro de 2000, exatamente seis anos depois da Jovem Pan ter derrubado a antiga Fluminense FM.
Antes de assumir a rede 89 no Rio, um locutor da Cidade veiculou uma notícia que, de maneira pejorativa, chamou o vocalista do Silverchair, grupo bajulado pela rádio, de "Capitu australiana", em alusão à personagem Capitu, interpretada por Giovanna Antonelli na novela Laços de Família (Rede Globo). A atitude do locutor parece uma simulação de "radicalismo roqueiro", mas consta-se que a produção e os locutores da Cidade não gostaram da volta ao rock e usaram a nota como um discreto desabafo. Informações dos bastidores apontam o mesmo motivo da volta "definitiva" da Cidade ao rock aquele que em 1985 inspirou iniciativa similar porém mais tímida, acima citada: a realização do Rock In Rio, desta vez em sua terceira edição, em 2001.
Como carro-chefe da programação da rede 89, a Cidade escolheu justamente os piores programas (mas que dão ilusão de interatividade para os ouvintes): "Pressão Total" e "Sexo Oral". O primeiro é um game show, criado por ex-produtores da Transamérica que criaram um programa similar em 1995. Esses produtores foram contratados pela 89 quando a Transamérica voltou ao pop eclético, e bolaram o "Pressão Total". O segundo, também originário da 89, é um programa com dicas bem humoradas de sexo, informações óbvias e que desviam os adolescentes da verdadeira educação sexual que deve ser feita nas escolas ou em estabelecimentos de saúde (hospitais e clínicas). Apesar do sucesso, os dois programas são constrangedores para os padrões de uma autêntica rádio de rock. Assim como o programa humorístico "Os primos de Cirilo", efêmero clone carioca dos Sobrinhos do Athaíde, mas que sua única missão é competir com "Topa Tudo Com Teobaldo" (Jovem Rio), também de curta duração. Algo tão rock'n'roll quanto pagodeiro ir para a Banheira do Gugu.
Em 2001, o "Sexo Oral" sai do ar, voltando depois, apenas em rede gerada de São Paulo, com a apresentação de Jairo Bouer (ex-Jovem Pan 2), e "Os primos de Cirilo" são abortados. Quando a Cidade era pop, em 2000, houve um projeto de chamar as comediantes do Grelo Falante (espécie de Casseta & Planeta de saias, numa comparação aproximada), responsável pelo humorístico "As Garotas do Programa" da Rede Globo (que incluiu a veterana atriz Marília Pera no elenco) para criar um quadro humorístico na programação da Cidade, mas o projeto não foi adiante.
A Rádio Cidade andava perdendo audiência desde março de 2001, após um breve período como líder do segmento jovem, durante o Rock In Rio 3 (janeiro de 2001) e em fevereiro seguinte. No entanto, sua fraca programação não irá lhe trazer prestígio, pois se trata do mesmo perfil de rádio dance só que com vitrola roqueira, ou seja, no lugar do pop dançante, a rádio toca sucessos comerciais do rock, e só. Sua aparente liderança entre as "rádios jovens", registrada entre fevereiro de 2001 e maio de 2002, se deve muito mais pelo fato das concorrentes estarem em pior situação do que ao sucesso da própria Rádio Cidade.
Em 2000, o Jornal do Brasil iniciou uma campanha maciça para promover a "nova" Rádio Cidade, com um anúncio que na prática nada diz, apenas mostrando o atual logotipo da emissora - que vem acompanhado do pretenso lema "A Rádio Rock" - , um desenho da bandeira brasileira acima e, abaixo, um lema escrito com grafia de máquina de escrever, que apenas diz "Rock. Necessidade básica". O tema é enganoso, porque nem o básico do rock ganha espaço fácil na Rádio Cidade que, apesar da publicidade do Jornal do Brasil - que em novembro e dezembro chegou a aparecer de dois em dois dias em média no Caderno B e toda semana nas revistas Programa e Domingo - , a rádio não conseguiu decolar na audiência, do contrário do sucesso imediato que teve quando surgiu em 1977.
Diante de constantes demonstrações de pretensiosismo, estrelismo e até arrogância, a Rádio Cidade já criou um lema para 2001 "Rádio Cidade, A Rádio Rock, hoje e sempre". No Caderno B do Jornal do Brasil de 11.01.2001, o então gerente Gilson Dodde garantiu que a emissora ficará no rock após o Rock In Rio 3, contrariando boatos que afirmam que a rádio abandonaria o segmento uma vez terminado o evento. Alexandre Howorusky, então coordenador da emissora, prometeu uma reformulação na imagem da rádio, mas não disse se era uma reformulação de perfil ou apenas de publicidade. Desconfia-se desse otimismo todo, pois a emissora tende a se manter na linha que desde 1995 insiste em adotar, que é juntar o que há de comercial e manjado no rock e inserir num perfil de radialismo pop muito mal dissimulado. Sem dúvida alguma a Rádio Cidade dificilmente se tornará uma nova "Maldita". Ela é bendita demais para isso, com tanto magnata apoiando.
O lema "hoje e sempre" foi depois abortado, por se tornar muito exagerado para a rede de FMs comerciais da 89 FM. Leva-se em conta que a 89 sempre se assumiu comercial, e a permanência do lema iria causar problemas de audiência pelo pretenso radicalismo.
Destaca-se nesta fase da Rádio Cidade a lamentável atitude de seus ouvintes fanáticos, uma minoria que se acha dona da cultura rock no Rio de Janeiro. Dividida em dois tipos - um mais cordato, que admite o legado e o carisma da Fluminense FM mas expressa uma "simpatia" um tanto exagerada à Rádio Cidade, e outro, mais agressivo e esnobe, que ataca críticas contrárias com ofensas e desaforos. Dá para perceber que essa "legião de roqueiros" de fato representa aquilo que Tutinha tentou atribuir indevidamente à Flu FM: uma pequena tribo que, com sua megalomania e arrogância, pensa que é uma gigantesca multidão.

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